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DENTRO DAS REDES:

UM CAFÉ COM OS CONTEMPORÂNEOS

Daniele Avila Small

 

DENTRO DE UM PROCESSO

 

“dentro”, solo de Laura Nielsen dirigido por Natássia Vello e produzido por Clarissa Menezes, criado pelo Teatro Inominável com dramaturgia de Diogo Liberano, é uma peça em que a personagem Leonor toma um café com suas antepassadas mortas na casa da família. O projeto a ser realizado pela Lei Aldir Blanc no Rio de Janeiro previa, inicialmente, a realização de apresentações do espetáculo em sedes de coletivos integrantes da Frente Teatro RJ – os que têm uma sede e se encontram fora da capital. No entanto, o recrudescimento do contágio do coronavírus fez com que o projeto precisasse ser adaptado para acontecer online e, assim, surgiram outras ações. Em vez de apresentar a peça, o Inominável realizou conversas online com os integrantes desses grupos e com artistas das artes cênicas que ocupam espaços de grande relevância para a cidade do Rio de Janeiro.

 

Das perdas envolvidas no impedimento de fazer teatro presencialmente, já sabemos. Mas é importante dizer que a adaptação do projeto proporcionou ganhos imprevistos. Então é preciso olhar para os ganhos. A série de conversas, que está disponível no canal do Teatro Inominável no YouTube, se tornou um arquivo precioso sobre o pensamento das artes cênicas no Rio de Janeiro que não ocupa lugares hegemônicos. As conversas reúnem relatos sobre as trajetórias dos grupos e suas histórias de relação com suas sedes, territórios, cidades.

 

Na criação de “dentro”, um dos desejos das artistas era que o espetáculo fosse uma roda de conversa. Essa adaptação tem, portanto, uma coerência ética. Foi preciso levar a proposta quase ao pé da letra para encontrar sua potencialidade específica para o ambiente virtual nesse momento e o resultado é rico e afetuoso. Além disso, tendo em vista que a peça lida com arquivos do passado, documentos, registros e narrativas, nada mais apropriado que proporcionar a abertura de outros arquivos. Esse movimento é importante não só para quem pesquisa trajetórias e modos de produção de grupos e espaços das artes da cena no Rio de Janeiro neste momento, mas também para quem vai, em algum lugar do futuro, encontrar esses documentos do momento histórico em que estamos vivendo e sobrevivendo no teatro, apesar de tudo. Apesar de tanto.

 

Minha relação com a peça começou logo antes do início dos ensaios. Como crítica e curadora de teatro, é uma sorte poder conhecer um projeto tão de perto, em uma etapa ainda embrionária, e depois ver o trabalho estrear e encontrar seu lugar no mundo. Em dezembro de 2018, com meus parceiros Felipe Vidal e Paulo Mattos, realizamos a primeira edição da Complexo Sul – Plataforma de Intercâmbio Internacional, um projeto que tem como objetivo proporcionar formas de intercâmbio entre artistas da cena na América Latina e criar espaços de experimentação para projetos autorais de artistas do Rio de Janeiro e do Brasil. Essa plataforma é organizada pela Questão de Crítica e pelo Complexo Duplo, grupo que integra a Frente Teatro RJ. Naquela primeira edição, uma das atividades consistia em uma oficina de compartilhamento de projetos. Conduzida pelo Felipe Vidal e por mim, representando a Complexo Sul, e por Cynthia Edul e Ariel Farace, representando a plataforma Panorama Sur, da Argentina, a oficina foi um espaço de intercâmbio, na qual artistas contavam uns aos outros sobre as suas ideias e, assim, as propostas eram colocadas à prova em um ambiente de escuta mútua, em que a atitude crítica era uma forma de acolhimento. Laura Nielsen e Clarissa Menezes participaram da oficina com suas ideias sobre “Dentro”. Lembro que havia ainda outro projeto, da Joana Lerner, que queria discutir a maternidade compulsória – uma das questões abordadas na peça do Inominável. Lembro também que dali surgiram conversas sobre as diferentes perspectivas sobre a maternidade e a ancestralidade de acordo com o recorte étnico e social. Ao assistir à peça na temporada de estreia, no Espaço 3 do CCBB, recordei com carinho aqueles encontros. Nos últimos dias, assistindo às conversas pelo YouTube, fiquei bastante feliz que, do final de 2018 para o início de 2021, esse trabalho, que me parece especialmente decisivo para Laura, Natássia e Clarissa, continue ganhando tônus.

 

ABERTURAS, GESTOS E RUPTURAS

 

Antes de chegar nos coletivos da Frente Teatro, aponto alguns momentos importantes das conversas realizadas com Deli Monteiro e Lazi Sival, do Jongo Da Serrinha, Regina Miranda, do Laban Rio, Gatto Larsen, do Terreiro Contemporâneo, e Marilene Nunes, do Museu da Maré, sobre as quais Aza Njeri escreveu há pouco, em texto já publicado no site do Teatro Inominável.

 

Deli Monteiro abre a conversa trazendo a presença das suas antepassadas, matriarcas do Jongo da Serrinha, e entoando um ponto de jongo. Foi por ali que começou o meu trajeto pelas lives do Inominável sobre “dentro”. Uma abertura no sentido amplo, um pedido de licença, e uma bênção para o caminho. Convocar ancestralidades, retraçar o caminho das que vieram antes de nós, percorrer esse trajeto na fabulação e na memória, é forjar um espaço para o convívio de presenças – as materiais e as imateriais.

 

Foi significativa a conversa com Regina Miranda sobre o Laban Rio, que abrigou a primeira apresentação de “dentro”, como um ensaio aberto. Regina conta do preparo do espaço, feito em diálogo com a história do lugar, levando em conta a dinâmica de ocupação da rua, das casas, das pessoas, do entorno. Ela relata como a memória inscrita nas marcas do edifício não foi ignorada na constituição do espaço cultural. Que pena que não pude assistir a esse ensaio aberto... Imagino que a sobreposição das memórias da personagem Leonor com as histórias da casa tenha feito um entrelaçamento interessante entre passados distintos.

 

A conversa com Marilene Nunes contextualizou a criação e o pensamento do Museu da Maré como um processo coletivo, em que a noção mesma de curadoria vai na contramão da colonialidade das instituições museológicas e que tantas vezes são feitas de objetos roubados. Marilene chama atenção para a dramaturgia do tempo como princípio organizador da espacialidade do museu – que não é a organização cronológica linear que comumente orienta as exposições históricas. Tem uma teatralidade ali, que me parece afim com as poéticas da memória da construção de “dentro” e de várias outras criações da cena contemporânea. O museu se revela como ambiente familiar, de acesso à história pelo afeto impresso nos objetos cotidianos. De certo modo, o espaço cênico da peça também é como um museu, talvez um museu virtual de memórias trocadas, considerando que os relatos que aparecem no texto pertencem às famílias das artistas envolvidas na criação, não são todas da atriz. As recordações da peça também são feitas de uma curadoria colaborativa.

 

Na conversa no Terreiro Contemporâneo, o co-fundador da Cia Rubens Barbot, Gatto Larsen, traz, como Regina Miranda, o relato dos traços do passado no espaço da casa que o grupo ocupa. Com gentileza e generosidade, ele faz uma reflexão pertinente sobre a peça, enfatizando a dimensão do gesto na construção dramatúrgica. Ele faz uma referência a Julio Cortázar em “O jogo da amarelinha”, para dizer que aquilo que nos liga à nossa ancestralidade não são as fotografias, são os gestos. Como repetimos os gestos dos nossos antepassados. Penso, sobre “dentro”, que também é preciso não repetir, cuidar para não perpetuar gestos de nossos antepassados e antepassadas. Afinal, não apenas por ser mulher, mas sobretudo por ser uma mulher branca, como as artistas do Inominável, não posso deixar de pensar que a minha relação com a ancestralidade não tem como ser calcada apenas na identificação e na celebração. Nos nossos gestos, é preciso que haja rupturas radicais, tanto no que diz respeito às opressões que sofremos, quanto no que se refere às opressões que praticamos.

 

LUGAR DE FALA, LUGAR DE ESCUTA

 

Para começar as conversas com os grupos da Frente, Laura, Natássia e Clarissa se reuniram com as integrantes da Coletivona. O grupo é uma iniciativa de Natasha Corbelino, que convocou mulheres para gerar renda para trabalhadoras da cultura, em diálogo com a Maré, com a presença e os saberes de mulheres da Maré. O recorte de gênero do grupo está em franco diálogo com o recorte temático da peça, mas a presença de mulheres negras no grupo traz para o debate as diferenças no acesso às histórias de gerações passadas. Entre essas diferenças, elas conversam sobre diversos pontos, como o embranquecimento das narrativas, por exemplo, que oculta práticas culturais e religiosas das avós, como aponta Priscilla Monteiro. A conversa também se estendeu sobre a saúde mental das mulheres diante da cultura da maternidade compulsória. As integrantes do grupo colocam um contraponto a esse problema (mais localizado na vivência das mulheres brancas), que é o direito de ser mãe para mulheres pretas.

 

“dentro” não é uma peça que pretende se colocar no lugar de todas as mulheres. As histórias contadas na peça são de mulheres brancas e, pelo fato mesmo das artistas terem conhecimento de que é preciso racializar o corpo branco para não resvalar na pretensão de universalidade, é possível que a peça desperte conversas relevantes para além do lugar de fala das artistas criadoras.

 

ATIVAR A CASA E SER ATIVADO PELA CIDADE

 

A conversa com o Uivo Coletivo traz a recordação de um momento seminal para os grupos da Frente, pois foi na Casa Uivo que realizamos a nossa primeira mostra, em novembro de 2019. Eu, particularmente, vejo aquele momento como um encontro de ativação mútua. A charmosíssima sede do grupo na cidade de Paracambi foi um dos fatores que animaram a realização da mostra (e a mostra foi uma espécie de materialização da Frente). E, por outro lado, a mostra impulsionou a consolidação da Casa Uivo como um espaço cultural daquele território em que não são muitos os lugares de fruição artística.

 

Não posso deixar de mencionar que naquele dia a Frente inaugurou na Casa Uivo uma semi-arena no jardim, feita com as nossas próprias mãos e apoios institucionais conquistados coletivamente. A esse espaço foi dado o nome de Anfiteatro Leandro Romano, em homenagem ao diretor do Teatro Voador Não Identificado, idealizador da Frente, que havia falecido tão precocemente em julho daquele ano. Aqui nesse texto não cabe descrever o que foi realizar a 1ª Mostra da Frente, mas, diante da conversa com os integrantes do Uivo Coletivo, e das imagens compartilhadas, é preciso abrir um parêntese para dizer, simplesmente: foi incrível.

 

Faz todo o sentido escutar uma conversa sobre uma sede que é uma casa, que foi a casa onde alguém viveu, que tem um formato arquitetônico de casa no sentido de lar, de morada. Não é uma sede com traços do que seria um espaço cultural urbano numa cidade com milhões de habitantes. Paracambi tem cerca de 52.000 habitantes e até pouco tempo era uma cidade rural, segundo Ralph Duccini, integrante do coletivo que é natural de Paracambi. A propósito, ele e a atriz Liv Beckencamp nos contam que encontraram na casa uma latinha com fotografias e documentos, provavelmente das pessoas que viveram ali. Aparece, nesse movimento de trabalhar sobre a casa, uma ancestralidade que não é deles diretamente, mas que eles acabaram herdando por ser uma ancestralidade do lugar que estão ocupando e onde estão investindo os seus afetos.    

 

Voltando à peça... “dentro” se inicia com uma conversa sobre os nomes das pessoas na plateia e os seus respectivos significados. A conversa sobre o nome do grupo vem com uma reflexão significativa sobre voltar para casa, sobre a relação entre o trabalho e o espaço. Uivo faz referência ao nome próprio de Ralph, que batizou a si mesmo com esse nome em homenagem a um espírito em forma de lobo, mas também a O uivo, de Allen Guinzberg que, como Hakim Bey, são referências artísticas para os desejos de investigação de linguagem do grupo, que tinha como premissa a ideia de terrorismo poético. Mas o que Ralph nos conta é que no processo de retornar a Paracambi (depois de 7 anos no Rio Grande do Sul), o reconhecimento do lugar fez o grupo repensar a poética de criação. Da estética do choque, eles passaram a pensar na prática artística como um convite. Isso nos dá a ver a passagem de uma conceituação francamente urbana para uma vivência de cidade que talvez não combine com essa linguagem. A volta para casa, o olhar para trás, pode mesmo provocar rupturas, recolocações, recomeços.

 

A CIDADE VISTA DE DENTRO

 

O trabalho do Grupo Código, de Japeri, é bastante calcado na prática de ocupação do território da cidade e da Baixada Fluminense. Uma das estratégias do grupo, que vejo como um modo de se fortalecer e de se manter em constante estado de autoformação, é integrar redes. O Código é parte da Frente e da Rede Baixada Em Cena, mas também do Japeri Mais Cultura. Alguns de seus integrantes, como Jorge Braga e Juliana França, também participam do projeto Artes Cênicas em Extensão, da UNIRIO, criado a partir de uma provocação do Leandro Santanna, do grupo Queimados EnCena, que também é integrante da Frente Teatro RJ. Para além da criação de espetáculos, o Código tem forte atuação na formação de artistas locais, na interação entre outros grupos japerienses e na intervenção sobre o imaginário da cidade sobre si mesma.

 

Jorge Braga e Nil Mendonça contam que a cidade é considerada uma “cidade dormitório” e, recentemente, foi chamada “cidade do nada” no RJ TV, um importante noticiário do estado do RJ. Com seu trabalho com o teatro, o grupo propõe que se olhe para dentro da cidade para ver o que ela tem – que não é “nada”. O Código colabora para tornar visível que Japeri tem identidade, memória, cultura, na contramão desse discurso acachapante. São 15 anos dessa estrada. A sede no bairro de Nova Belém é um dos únicos espaços culturais do município. Com esse movimento, os artistas não estão apenas fazendo um resgate da identidade e da autoestima da cidade, estão se dedicando a inscrever-se na história do município, da Baixada, do estado, rompendo com um discurso irrefletido e afirmando o contrário com um fazer criativo e propositivo.

 

Quando artistas se dedicam a suas biografias, histórias familiares, ancestralidades, como o pessoal do Inominável faz em “dentro”, mas também como o Código faz em “Naquele instante”, por exemplo, ou em “Agbara”, não me parece que é apenas para repetir, reafirmar, retomar, relembrar – o que também é um movimento indispensável –, mas sobretudo para identificar as descontinuidades, os desvios, as interrupções e os espaços vazios a ocupar nas próprias fabulações. A Japeri do Grupo Código não é a Japeri vista e narrada por quem está de fora.

 

A ÉTICA DA RODA

 

A conversa com o CETA – Centro Experimental de Teatro e Artes, localizado em Nova Iguaçu, foi realizada com Vânia Santos e Lino Rocca. Antes de mais nada, faço questão de apontar o quanto é importante a participação da Vânia nesse encontro, e com isso não quero desmerecer a presença do Lino, absolutamente. É que nos encontros da Frente, por questões da necessária divisão de tarefas entre os integrantes de cada grupo, acabamos tendo muito mais contato com o Lino. Na verdade, essa é uma observação que se pode fazer de todos os encontros. Minimizados os entraves logísticos, foi mais possível que vários integrantes do mesmo grupo estivessem presentes nessa série de conversas. Mas, por outro lado, também podemos pensar que isso é algo que se pode dizer de vários coletivos: apesar do desejo de horizontalidade, muitas vezes a figura central do grupo, quase sempre um diretor, homem, é quem as pessoas têm em mente como referência daquela companhia.

 

Considerando a relação com as questões da peça, Vânia traz uma atitude com o próprio nome que não é tão comum. Dado por sua mãe, que achava o nome forte, Vânia fala em “entoar o próprio nome”. “Meu nome me representa, eu gosto do meu nome.” Essa ideia de entoar o próprio nome, ou poderíamos dizer, esse gesto de entoar o próprio nome, tem relação com as investigações cênicas de poéticas autobiográficas. Não se trata de mera afirmação egóica, mas de um gesto de convocar a si mesma, de colocar-se no jogo de pé, com os pés firmes no chão, com disponibilidade para estar com o outro, mas estando, também, consigo mesma.

 

O CETA abriu a 1ª Mostra da Frente com “Roda, rodar, rodei”, ação conduzida por Vânia que foi (como o ponto de jongo da primeira conversa a que assisti) uma abertura de trabalhos no sentido amplo e profundo, que instituiu o tom e ética daquele dia tão marcante. E, como já sabemos, tem tudo a ver com o desejo das artistas do Inominável de que a peça funcionasse como uma roda. O início do processo, segundo Natássia, foi em roda, uma roda de troca. E ela entendeu que a dinâmica da roda precisaria estar na poética do espetáculo de algum modo.

 

Vânia conta o quanto “Roda, rodar, rodei” foi um divisor de águas para ela, por ter ajudado a derrubar a barreira entre a atriz e os espectadores, para estar com o outro. Ela se refere a esse trabalho como forma de acesso à ancestralidade e como uma forma de cura. A ética da roda também dá a tônica da interseção entre os processos artísticos e os processos pedagógicos que marcam a longa trajetória do CETA. Ensinar, para eles, é dar a mão, ajudar e caminhar junto. Não é levar o outro a algum lugar.

 

Lino e Vânia também falaram sobre encontros de conhecimento em processos pedagógicos. Essa expressão me chamou a atenção: “encontros de conhecimento”. Há alguns anos estudo poéticas de teatro documentário em que há produção de saber histórico sendo movimentada pela cena. O teatro autobiográfico e a natureza da troca que está em jogo em “dentro” podem ser pensados por essa ideia de “encontros de conhecimento”. Não se trata um saber que se adquire, de alguém que possui determinado conhecimento e transfere esse conteúdo para alguém que não o tem. A produção de saber que me parece estar em jogo nesses encontros de conhecimento, nos quais o teatro se aproxima do ensino e da pesquisa sem reivindicação de autoridade, são como um convite ao pensamento crítico sobre as narrativas familiares de cada um.

 

A CULTURA CONTA BARRA MANSA

 

A conversa com o coletivo Sala Preta, de Barra Mansa, que tem 12 anos de atividades artísticas, formativas e políticas no Sul Fluminense, também proporcionou um encontro com vários integrantes do grupo. Como o Sala Preta entrou na Frente já depois da primeira mostra, foi para mim uma excelente oportunidade escutar sobre a trajetória do grupo com tempo e tranquilidade. 

 

Hoje o grupo ocupa um espaço público dentro do Parque da Cidade, uma sala multiuso que funciona como sala de espetáculo. Esse espaço tem uma inscrição complexa na vida política da cidade, pois foi um lugar de violência de estado, onde se praticou tortura sistematicamente durante o período da ditadura. O grupo deseja ressignificar esse espaço, com projetos que refletem essa experiência, considerando que os moradores de Barra Mansa não reconhecem que houve tortura na cidade, como se a ditadura militar não tivesse passado por lá. O coletivo falou bastante sobre como pensar artisticamente em formas de interagir com o entorno do espaço.

 

Laura perguntou sobre “Nasce uma Cidade”, projeto de fôlego do Sala Preta. O diretor Bianco Marques e os demais integrantes do grupo contam que foram 4 edições entre 2010 e 2015 que contavam com um coro de 40 atores (não só do grupo, e também de cidades vizinhas), percorrendo as ruas e apontando marcos históricos nas estações da cidade. Nessa obra, a cultura conta Barra Mansa. A partir dessa ação, o grupo começou a ser reconhecido pela cidade como movimento cultural da região. E passou a se sentir barra-mansense.

 

Mais uma vez aparece o gesto artístico (ao mesmo tempo historiográfico e de tal modo político) de traçar uma narrativa desde dentro, seja de si, da família ou da cidade. Danilo Nardelli se refere a um gesto artístico do grupo como um ato psicomágico: desenterrar a cabeça de burro que teria sido enterrada por um padre para que a cidade não desse certo. Ato psicomágico é uma expressão do cineasta argentino Alejandro Jodorovski, também usada em uma peça recente por Janaina Leite, artista de teatro que tem feito investigações radicais em narrativas autobiográficas. Em sua peça mais recente, ela define ato psicomágico, fazendo referência a Jodorovski: “uma ação real que produza consequências simbólicas ou uma ação simbólica que produza consequências reais, mas que devolva cada uma dessas figuras às suas devidas posições.” Assim, penso que narrar o passado não é só fazer determinados fatos se tornarem visíveis ou impedir que se esqueça atrocidades de outros tempos, mas reposicionar figuras, narrativas, lugares e afetos.

 

UM ENDEREÇO, UMA INSCRIÇÃO

 

A última conversa a que assisti foi com a Cia. Cerne, de São João de Meriti. O grupo se juntou sob esse nome depois de um tempo de trabalho na Cia. Cenáculo (que dá nome ao festival que a Cerne realiza), que fazia atividades dentro de igrejas católicas. São João não tem teatros ou centros culturais além do Sesc, então as escolas e as igrejas acabam por se tornarem esse lugar em que os jovens encontram espaço para experimentar o teatro e outras atividades artísticas. Por um desejo de abertura, os integrantes da companhia tomaram um novo rumo e as características do novo projeto foram se desenhando no próprio fazer, ao longo do tempo.

 

É significativo que o título de um dos espetáculos mais recentes do grupo seja um endereço: “Turmalina 18 50” conta a história de João Cândido Felisberto, líder da Revolta da Chibata, que viveu nesse endereço da cidade. A peça estreia em 2019, depois de 5 anos de atividades da companhia. O grupo levou algum tempo até que se decidiu a falar do território, resgatando o vínculo desse personagem histórico com a cidade, considerando que muitos cidadãos mal conheciam essa história. O gesto é, portanto, de reverter um apagamento.

 

Em algum momento da conversa, aparece uma diferença entre “Turmalina 18 50” e “dentro”. João Cândido, figura histórica, líder revolucionário; Leonor, mulher comum, anônima. Mas o diretor Vinicius Baião aponta que toda a segunda parte do espetáculo é sobre o homem comum, que trabalhava na descarga de peixe na Praça XV. E que essa parte da peça foi criada com a ajuda dos relatos do filho de João Cândido. Esse também é um movimento interessante a se apontar sobre as escritas historiográficas no teatro atual: a atenção à vida cotidiana como parte inseparável do pensamento sobre a cultura de um país, de uma cidade, bairro, rua, família, seja qual for o recorte espacial que se quer investigar.

 

OBRIGADA!

 

Só tenho a agradecer às queridas Clarissa, Laura e Natássia por esse convite para estar um pouco mais por dentro da história das artes cênicas no Rio de Janeiro, contada pelos nossos contemporâneos, por homens e mulheres de teatro, que irradiam atitude crítica e criativa desde os seus territórios, para quem quiser se aproximar. Foi também uma outra forma de rever a peça, de procurar relações entre a dramaturgia assinada por Diogo Liberano, os relatos e as questões colocadas pelas artistas, a posição tomada no gesto de querer saber mais sobre o outro, na dinâmica complexa proposta pelo exercício de falar de si.

 

Em meio à enorme tristeza pelas mais de 290.000 mortes no Brasil e pela situação aterradora em que o país se encontra em todos os aspectos, o teatro segue abrindo parênteses para pequenas alegrias e proporcionando refúgios para a nossa saúde mental. Expresso aqui meus mais sinceros agradecimentos a Jandira Feghalli e Benedita da Silva, por terem se dedicado à Lei Aldir Blanc com tanto afinco, sem a qual este e tantos outros belos projetos não estariam se realizando agora.

 

Muito obrigada mesmo!

Abraços em todes.

 

Daniele Avila Small

Rio de Janeiro, 21 de março de 2021.

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Foto Ricardo Laf
Daniele Avila Small (Rio de Janeiro, 1976) é crítica, pesquisadora e curadora de teatro. Doutora em Artes Cênicas pela UNIRIO, é idealizadora e editora da revista Questão de Crítica. Em 2017, dirigiu Há mais futuro que passado – um documentário de ficção. Foi curadora dos Olhares Críticos, eixo reflexivo da MITsp entre 2018 e 2020, dentre outros projetos de formação, teoria e crítica de teatro desde 2011, como as edições do Encontro Questão de Crítica, do IDIOMAS – Fórum Ibero-Americano de Crítica de Teatro e da Complexo Sul – Plataforma de Intercâmbio Internacional. Integrou também as equipes de curadoria do FIT BH 2018 no projeto Corpos Dialetos, da 6ª edição da Janela de Dramaturgia (CCBB-BH) e da seleção local do FIAC – Festival Internacional de Artes Cênicas da Bahia. Em 2020, foi uma das curadoras da Mostra Temática da 14ª CineBH, dedicada ao teatro online.
 
 
 
Fotografia de fundo Thaís Barros