Experimentos reflexivos sobre o projeto “Dentro das Casas” da Companhia Teatro Inominável

Aza Njeri

 

I – Porta a dentro

 

Começo esse diálogo reflexivo me apresentando: Aza Njeri, muito prazer. Eu estudo o mundo. Colho informações e acendo sóis. Eu gosto das filosofias africanas e, para elas, o nome é capa do Ser. É o que dá palpabilidade à matéria. Você é aquilo que te chamam. Me chamam Aza Njeri. Meu nome tem origem bantu, numa língua do Quênia que nunca saberei pronunciar, assim como uma cultura que me foi roubada há quinhentos anos atrás. Meu nome significa “poderosa filha de um guerreiro”. E o meu poder são as palavras. E o nome é a primeira porta que abrimos para dentro de nós.

Leonor traz consigo os nomes que abrem a porta de entrada de si. Ela volta com a bagagem do passado. Vamos todas tomar um café, embora eu prefira cerveja. Café às oito dá insônia. Talvez precise da insônia para pensar nas noites mal dormidas das ancestrais e do barulho de choro infinito que carregamos na batida do coração. O que as minhas ancestrais me diriam se me visse hoje? E as suas? O que lhes diriam? E as de Leonor? Nós somos ancestrais também. O nosso tempo ancestral é futuro. Somos frutos daqueles que vieram antes de nós. Já se perguntou quem teve que nascer antes de você para que você nascesse? Quem é a sua primeira paridora ancestral?

 

Somos fragmentos dos úteros que pariram os nossos úteros. Cada foto memoriza o instante de matriarcas de nossa linhagem. Belalinda. Será que estavam felizes naquele dia? Anazita. Por que escolheu esse vestido? Inês. Quem pagou por esse piano? Helena. Quem era o dono do seu ventre? Leonor. Ela amamentou os filhos? Édna. Ela quis ter filhos? Julieta. Ela era quem vendia ou quem comprava? Herculina Generosa. Ela sentava-se na cabeceira da mesa de jacarandá e matrigestava. Eu.

 

Vamos arrombar as paredes do passado e deixar que o vento atravesse o tempo e nos traga fôlego. Aprender com os sussurros as estratégias do ontem para sobreviver às opressões de agora. Grafadas nas paredes da casa, os cheiros dos sonhos não vividos pintados num branco firme. Se tinha senzala, não sabemos, mas podemos ver a Sankofa tatuada nas grades da janela. Memória. Na espiral do tempo, os problemas de ontem ainda nos suspendem. Escute. Trocam-se as retinas, apenas as retinas.

 

Com as portas abertas do Ser, durante quatro noites às 20h, tomamos café temperado com memória. E neles vamos resgatando as imagens em cor sépia do antigamente, preparando o nosso caminho ancestral.

 

Café das oito: Da ancestralidade

 

Abre-se a porta da Casa do Jongo da Serrinha. À soleira Lazir e Deli, matrigestoras da Casa, guardiãs da memória. Duas famílias: Monteiro e Oliveira. Descendentes dos fundadores. Mantenedores da tradição e responsáveis pela sua transmissão.

 

Tia Maria do Jongo sempre dizia que eram as mulheres que faziam o jongo. Mulheres são portadoras da cultura, agentes transmissoras do legado cultural, ético e estético. Elas matrigestam o jongo. E de dentro da peça pra dentro da Casa do Jongo, saudamos as “Pretas velhas jongueiras”:

 

Preta velha jongueira

Meu caxambu está lhe chamando

Sinto a poeira do chão levantando

Com seu tabiado

Minha vovó benzeu no tambú

Vai caminhando para tabiar

Vai caminhando para tabiar

Aé vovó, caxambú tá no terreiro

Como é lindo vovó

O rufar do candongueiro

Minha vovó benzeu no tambú

Vai caminhando para tabiar

Vai caminhando para tabiar

 

Que saudade

Que saudade

Daquela linda fazenda

Daquela linda fazenda

Fazenda onde minha vó nasceu

Fazenda onde minha vó criou

Fazenda dos sonhos dourados

Aonde nasceu meu avô

 

Vovó Maria Joana Rezadeira e seu filho Mestre Darcy do Jongo trouxeram a sabedoria do Caxambu, plantando a continuidade do jongo no útero da Serrinha. Hoje toda criança da comunidade sabe jongar. As crianças jongam. As crianças cantam. As crianças guardam a responsabilidade da preservação do jongo amanhã.

Jongo da Serrinha é uma Casa ancestral. Um lugar de acolhimento e pertencimento comunitário. De reavivamento da tradição. É memória. “Vida ao jongo” canta Lazir Sinval:

Oh! Deus vos salve

Angoma-puíta

Candongueiro, Tambu, Caxambu

Senhora Santana

Eu sou o jongo

Meu Santo Antônio

Meu São José

Cacurucaia eu tô

Perengando tô

Mas não posso morrer

Cacurucaia eu tô

Perengando tô

Mas não posso morrer

Eh! Eh! Salve o Rosário

Eh! Eh! Minhas Santas Almas, Benditas

Eh! Eh! Me salve todos Jongueiros

Oh! Deus vos salve o Cruzeiro das Almas

Meu Povo Banto

Salve Nossa Senhora Santana

Meu santo Antônio; Meu São José

Salve São benedito; Salve as santas Almas Benditas

Salve o Cruzeiro das Almas

Salve nossa senhora do Rosário

Salve Nosso pai maior

Dai-nos a proteção Meu Pai

Para abrir nossa roda de jongo

Adorei as Almas

 

E o café das oito se transforma em jongo, energia e ancestralidade. Todos estão conosco. O amarelado das fotos em preto e branco, trazem as cores da senzala, do quilombo e da resistência. A memória dos antigos é o fôlego para os mais novos. Bendito, louvado seja, o Jongo da Serrinha!

 

Café das oito: A casa

 

As portas da Casa Laban sempre estão abertas àqueles que buscam acolhimento e arte. Uma casa com muitos dentros: o histórico, que já deveria ter sido tombado pelo Iphan; o de resistência, encabeçado por Regina Miranda, a sua matrigestora; o de confluência de ideias e práticas experimentais de movimento e arte; e o de afeto que acolheu a peça “dentro” em seu primeiro ensaio aberto num encontro entre mulheres.

 

A Casa Laban é uma matriarca centenária que guarda em cada dobra as memórias de sua existência. Preservada como no original, sem plásticas ou botox, deixa vir as rugas como marcas da experiência. Como toda casa-mãe, “as crianças são bem vindas”, seja com Angel Vianna, seja com Regina Miranda, seja com qualquer outra artista que materna a sua principal obra de arte. Nesta casa, todas as crianças são bem vindas, porque elas “são a recompensa da vida”, já dizia o provérbio bantu. Nesta casa sempre há lugar para os que chegaram há pouco tempo nesse mundo. E podemos ouvir seus risos nos ecos do salão.

 

Nesta Casa o tempo é outro. É o tempo para a experimentação. O macrotempo da vida flui e o microtempo conflui e se suspende, pois todo tempo é tempo para o respiro da arte.

 

E como toda mulher numa sociedade patriarcal, a Casa Laban também sofre violências e a maior delas é a que ameaça a sua própria existência. Sem apoio, corre o risco de morrer. Tornar-se memória apenas. E o café torna-se amargo. Um luto pelo que virá e uma sensação de injustiça.

 

A perda da Casa Laban traz à cena a discussão sobre a manutenção dos espaços culturais e a lucidez de seu sucateamento. Diante da desgraça coletiva que vivemos deveríamos bradar “A Arte Salva!”, mas a Arte tem o poder de salvar? A Arte salva quem? E quem salva a Arte?

 

café das 8: Da memória

 

De portas abertas, o Museu da Maré nos recebe para um café com Marilene Nunes, contadora de histórias e matrigestora. Um espaço de memória, contos e lendas. Uma Maré de afetos. Do tempo em que o tempo não era corrido e virtual. Ouça. Silencie e escute as vozes dos objetos. São da casa, da feira, da mineração... Eles guardam sonhos, risos, lágrimas e almas.

 

A lata que ia na cabeça lembra o tempo em que ter água na torneira era luxo. Hoje os baldes cumprem este papel na mesma falta d'água. Nas moringas o líquido fresco que mata a sede de Vida daqueles que admiram uma paisagem sem esperança. Da lamparina, o cheiro da querosene iluminando nossas noites cruas  de incertezas. O cheiro que se mistura ao de cabelo queimado no pente, numa certeza de beleza emoldurada num paradigma branco. E a terra na garrafa que corporifica os muitos chãos que pisam na Maré, cujo Amar é Memória. 

 

Pronto, o prato de ágata está posto e o café tá no bule. É hora do Maré de Histórias no café das oito. Momento de antigamente, de se colocar na encruzilhada das possibilidades, se criar e recriar.

 

Marilene toma um chá de memória e traz a ancestral Orozina Vieira para a roda. Nascida em 1940, a líder comunitária foi uma referência para os moradores até os seus 102 anos. E hoje, ela zela ancestralmente pela comunidade. Assim como Marielle Franco, que também é ancestral, cuida e vive pulsante nas ruas e vielas. Marilene conta e reconta as histórias e nos convida para o casamento mais estranho da Maré. E, entre uma xícara e outra, vamos  recuperando o viver de antigamente.

  

Café das oito: O Chão

 

O chão desta casa é regido por Iansã, a senhora do movimento. Aquela que tudo balança, cujos raios cantam um novo amanhecer. E ela nos dá a permissão de entrar em seu “Terreiro Contemporâneo” para o nosso café das oito. Quem nos recebe é Gatto Larsen, matrigestor da casa junto a Rubens Barbot, zelador da primeira companhia negra de dança contemporânea sediada no terceiro andar do casarão. Ao nos receber, Gatto logo nos avisa que o espaço é da senhora dos ventos, regente ancestral do espaço construído em 1917 e inaugurado em forma de terreiro urbano das artes em 2015 com a premiada Confraria do Impossível, curadora do espaço.

 

Eu sou uma frequentadora do Terreiro Contemporâneo. Neste café, acompanho aberta em afetos. E vou entendendo porque minha mãe Oya me levou tantas vezes para esta casa na Praça da Cruz Vermelha. Lancei meu primeiro livro no chão do Terreiro Contemporâneo em 2016. Lá me aprofundei no cinema negro com nos encontros promovidos pelo seu primeiro residente: o Cineclube Atlântico Negro do Clementino Jr. Também ali me entreguei à crítica teatral que me traz a essa escrita hoje! Se você está lendo esse texto, saiba que foi na primeira edição do Festival Segunda Black no Terreiro Contemporâneo que me tornei crítica de teatro. É como aquele provérbio iorubá: “Exu matou o pássaro hoje com a pedra que lançou ontem”. Axé oo.

 

O vento que me levou para o Terreiro se chama Sol Miranda, também uma filha de Oya. No momento buscava acolhimento para o ensaio de “Mercedes” espetáculo sobre a ancestral Mercedes Baptista, primeira bailarina negra do Teatro Municipal. Eu conheci a Sol Miranda assistindo à Mercedes que foi ensaiada no Terreiro Contemporâneo. Entende o movimento cíclico?

 

Neste cortiço artístico contemporâneo confluem as artes. Tinta sobre tinta, camadas de afeto. As paredes derrubadas do ontem não destruíram sua história. Elas estão marcadas em cimento destruído. São manchas na pele da casa.

 

Como todo terreiro, este, contemporâneo, entende a importância dos mais novos para a manutenção do futuro. O olhar para/da juventude ecoa numa estética afrofuturista experimental. Andar pelo Terreiro Contemporâneo desperta cosmosensações, como se a sua existência fosse uma lembrança marcante no hoje das lutas do ontem que sustentam as vitórias do amanhã. Não à toa, três prêmios Shell.

 

A música é um valor pilar do terreiro. Seja nos batuques ancestrais ou na contemporaneidade do “Dembaia”, a casa na pacata rua Carlos de Carvalho vibra música negra.

 

Antes da pandemia, a casa estava a todo vapor. A última apresentação foi com Cyda Moreno e a obra “Eu, Amarelo” sobre Carolina Maria de Jesus, suspensa pelo isolamento de Covid-19.

 

Hoje a casa está adormecida. Em estado de borboleta esperando o momento de sair do casulo e voltar a ser o chão para onde conflui muita intelectualidade e arte negra.

Leia também
DENTRO DAS REDES: UM CAFÉ COM OS CONTEMPORÂNEOS
Daniele Avila Small
Viviane Mendes de Moraes (Aza Njeri): é doutora em Literaturas Africanas - UFRJ, pós doutora em Filosofia Africana/UFRJ, coordena o Núcleo de Filosofia Política Africana do Laboratório Geru Maa/UFRJ e o Núcleo de Estudos Geracionais sobre Raça, Arte, Religião e História do Laboratório das Experiências Religiosas/UFRJ. É professora nos cursos de graduação e pós-graduação de Engenharia e Psicologia na Universidade Geraldo Di Biasi - Nova Iguaçu e professora de Filosofia Africana na Pós Graduação em História da África no Instituto de Pesquisa e Memória Preto Novos/RJ.
 
 
 
Fotografia de fundo Thaís Barros